Quando pensamos no Havaí, algumas imagens surgem rapidamente: praias de água azul, ondas gigantes, vulcões e vegetação tropical. Mas, na Ilha Grande, basta deixar a costa e subir pelas encostas de Kona para encontrar outra paisagem igualmente importante para a cultura local: fileiras de cafeeiros.
É dali que nasce o Kona Coffee, um dos cafés mais conhecidos do Havaí. Cultivado em uma região específica da ilha, ele mostra de uma maneira bastante interessante como clima, solo, relevo e história podem chegar juntos à xícara.
E sim: no Havaí, café também virou atração turística!
O que é o Kona Coffee?
Kona Coffee é o café cultivado nas regiões de North Kona e South Kona, no lado oeste da Ilha Grande do Havaí. A área é conhecida como Kona Coffee Belt “Cinturão do Café de Kona”, uma faixa de cultivo localizada nas encostas vulcânicas da região.
O próprio portal oficial de turismo do Havaí destaca três características importantes desse ambiente: altitude, cobertura frequente de nuvens e solo vulcânico rico, condições que ajudam a criar um ambiente favorável para o cultivo.
É um ótimo exemplo daquilo que, no universo do café e do vinho, chamamos de terroir. Em outras palavras, não basta olhar para a espécie do grão. O lugar onde a planta cresce também deixa sua assinatura.
O vulcão também participa da xícara
Os cafeeiros crescem nas encostas da região vulcânica, onde encontram solos formados ao longo da história geológica da ilha. Ao mesmo tempo, a dinâmica climática de Kona combina sol, nuvens e chuvas frequentes. Por isso, falar sobre Kona Coffee sem falar do Havaí seria perder metade da história.
E essa relação ajuda a explicar algo importante sobre café: um grão arábica não possui um único sabor simplesmente porque é arábica. Variedade, altitude, clima, solo, maturação, processamento e torra interferem naquilo que encontramos na bebida.
É justamente por isso que provar cafés de origens diferentes pode ser tão interessante, e cada xícara funciona quase como uma pequena viagem.
E essa história tem uma conexão curiosa com o Brasil
Antes de Kona se tornar sinônimo de café havaiano, houve uma passagem brasileira nessa história.
Segundo a Associação de Café do Havaí (Hawaii Coffee Association), em 1825 o chefe Boki, então governador de Oahu, levou plantas de café do Brasil para o Havaí. Alguns anos depois, em 1828, o missionário Samuel Ruggles introduziu cafeeiros na Ilha Grande, dando início à história do cultivo em Kona.
No fim do século XIX, outra mudança importante aconteceu: produtores introduziram uma variedade Typica vinda da Guatemala. Ela se adaptou tão bem à região que ficou posteriormente conhecida como Kona Typica.
Ou seja, a história do café por lá também foi construída por viagens, adaptações e encontros entre diferentes lugares.
Do cafezal para o roteiro de viagem
Quem visita a Ilha Grande não precisa escolher entre conhecer o Havaí ou conhecer o café. As duas experiências podem fazer parte da mesma viagem e talvez essa seja a parte mais divertida.
O site oficial de turismo havaiano apresenta as plantações de café como uma das atrações da ilha e destaca que centenas de fazendas estão espalhadas pela região de Kona, muitas delas abertas a visitantes. Os passeios podem incluir caminhada entre os cafeeiros, explicação sobre colheita e processamento e, claro, degustação. É praticamente uma rota do café com vista para o Pacífico.

Além disso, todos os anos acontece o Kona Coffee Cultural Festival, considerado o festival gastronômico mais antigo do Havaí. Em 2026, a programação acontece em novembro e reúne atividades ligadas à produção, degustações, visitas a fazendas, cultura e história local.
O café deixou de ser apenas uma produção agrícola e passou a fazer parte da experiência de conhecer a região.
Existe até uma classificação própria para os melhores grãos
A prova de que o cuidado não termina na lavoura é que o Havaí possui padrões oficiais para classificar seus cafés verdes. Entre as categorias estão Extra Fancy, Fancy, Number 1, Select e Prime, com critérios ligados ao tamanho, umidade, uniformidade e quantidade de defeitos dos grãos. O Extra Fancy ocupa o nível mais alto dentro dessa classificação.
São detalhes que mostram até onde pode chegar a atenção dedicada a um produto que faz parte da identidade local.

Afinal, qual é o gosto do Havaí?
Talvez essa seja a pergunta mais interessante e a mais difícil de responder apenas com palavras. Perfis sensoriais podem variar conforme fazenda, variedade, processamento e torra. Então você pode até ler sobre solo vulcânico, clima, altitude e história para conhecer o café, mas, quando chega à xícara, a experiência passa a ser somente sua.
A história do Kona Coffee ensina algo que vale para qualquer bom café: origem importa.
Assim, vemos que os cafés arábica encontrados em diferentes regiões do mundo podem entregar experiências completamente distintas, e conhecer essas histórias aumenta nosso repertório. Além disso, transforma a próxima xícara em algo ainda mais interessante.
No fim, talvez o Havaí tenha encontrado mais uma maneira de fazer aquilo que já sabe tão bem: criar experiências difíceis de esquecer. Sendo algumas em forma de ondas, e outras em uma boa xícara de café.